Trump descartou Bolsonaro por considerá-lo perdedor, diz ex-embaixador dos EUA
O recuo dos Estados Unidos em medidas punitivas adotadas contra o Brasil e integrantes do Judiciário brasileiro não foi resultado direto de uma estratégia bem-sucedida do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas sim do comportamento imprevisível do presidente americano Donald Trump e da mudança de sua percepção sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. A avaliação é de John Feeley, ex-embaixador dos Estados Unidos no Panamá e ex-integrante do Departamento de Estado, em entrevista à BBC News Brasil.
Segundo o ex-embaixador, Trump passou a ver Bolsonaro como um “perdedor” após sua condenação e prisão, o que teria levado ao rompimento tácito da relação política entre os dois. “Assim que Bolsonaro perdeu, ou seja, assim que foi condenado e preso, Donald Trump o viu como um perdedor, e se há algo que Donald Trump não tolera são perdedores”, afirmou o diplomata, que deixou o governo americano em 2018 por discordar das decisões do republicano.
Na avaliação de Feeley, Trump nunca demonstrou interesse profundo pelo Brasil e sua relação com Bolsonaro se limitou a uma convergência momentânea de discursos conservadores, explorada de forma oportunista pelo presidente americano junto a sua base eleitoral. Com o enfraquecimento político do ex-presidente brasileiro e o avanço das instituições democráticas, Trump teria simplesmente abandonado o antigo aliado.
As tensões recentes entre Brasil e Estados Unidos se intensificaram em julho, quando Washington impôs tarifas de 40% sobre produtos agrícolas brasileiros e incluiu o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e sua esposa na lista de sanções da Lei Magnitsky. As medidas ocorreram em meio a pressões do governo Trump para influenciar o julgamento de Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. No entanto, em novembro, Trump suspendeu as tarifas e, semanas depois, retirou os nomes da lista de sancionados.
Para Feeley, a adoção inicial das sanções foi resultado direto do lobby de Eduardo Bolsonaro em Washington, e não de uma política de Estado bem definida. Ele avalia que Trump é facilmente influenciado por assessores e lobistas e que as decisões tomadas nos últimos meses refletem mais improvisação do que estratégia diplomática. “Lula teve sorte”, disse, ao afirmar que negociar com Trump é praticamente impossível devido ao seu perfil “narcisista e imprevisível”.
O ex-embaixador também comentou o endurecimento da política americana contra a Venezuela, com o bloqueio total de navios-petroleiros sancionados que entram ou saem do país. Segundo ele, a medida é mais eficaz para pressionar o regime de Nicolás Maduro do que ações anteriores, como operações militares contra embarcações suspeitas no Caribe. Ainda assim, Feeley reconhece que sanções econômicas produzem efeitos colaterais sobre a população, embora não sejam, segundo ele, a principal causa da crise humanitária venezuelana.
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