Corte de benefícios ameaça economia do interior do RN, diz estudo da USP

A interrupção dos ganhos reais de aposentadorias e benefícios sociais pode provocar uma redução de até 18% na renda agregada dos municípios do interior do Rio Grande do Norte nos próximos três anos. A estimativa consta de estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Universidade de São Paulo (USP), que coloca o Estado entre os mais expostos aos efeitos econômicos de uma eventual estagnação das transferências públicas.
O levantamento analisa a participação das aposentadorias, do Benefício de Prestação Continuada (BPC) e de programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, na sustentação da atividade econômica fora das regiões metropolitanas. Nessas localidades, os pagamentos representam uma parcela elevada dos rendimentos familiares e contribuem para movimentar supermercados, farmácias, pequenos estabelecimentos comerciais e prestadores de serviços.
No Rio Grande do Norte, a dependência desses recursos torna os municípios do interior particularmente vulneráveis às mudanças na política de valorização dos benefícios. O estudo projeta que a renda agregada nessas localidades poderia ficar entre 17% e 18% abaixo do cenário de manutenção dos ganhos reais, percentual semelhante ao estimado para Amapá e Piauí.
A projeção não significa que haverá uma queda efetiva dessa magnitude na economia potiguar. Trata-se de uma simulação que compara diferentes trajetórias de reajuste dos benefícios. O resultado mede a diferença entre o cenário de valorização real e outro no qual os pagamentos acompanham apenas a inflação, sem aumento do poder de compra.
Segundo Luiza Nassif, codiretora do Made-USP, os recursos recebidos pelas famílias são direcionados principalmente ao consumo de produtos e serviços básicos. Dessa forma, os pagamentos sustentam não apenas os beneficiários, mas também empresas e trabalhadores que dependem da demanda local.
O efeito se estende à arrecadação municipal. Quando as famílias reduzem o consumo, estabelecimentos comerciais podem registrar queda no faturamento, diminuir contratações e rever investimentos. A circulação menor de recursos também pode afetar receitas públicas associadas à atividade econômica.
A pesquisa considera o comportamento dos benefícios entre 2022 e 2025 e o compara com um cenário semelhante ao observado entre 2019 e 2022, quando não houve ganhos reais do salário mínimo. Em âmbito nacional, a ausência de valorização poderia deixar a renda agregada do interior entre 6,8% e 10,8% abaixo do patamar projetado com reajustes superiores à inflação.
Para o Rio Grande do Norte, a diferença estimada é maior, evidenciando a participação das transferências previdenciárias e assistenciais na formação da renda dos municípios fora da região metropolitana.
Comércio do interior depende da renda transferida pela União
A importância econômica dos benefícios está relacionada ao destino dos recursos. Diferentemente de rendimentos direcionados à poupança ou aplicações financeiras, parte expressiva dos pagamentos sociais e previdenciários é utilizada imediatamente para alimentação, medicamentos, transporte e despesas domésticas.
Esse padrão de consumo favorece a circulação do dinheiro dentro dos próprios municípios. Aposentados, pensionistas e beneficiários de programas sociais realizam compras que ajudam a manter o faturamento de pequenos negócios e a demanda por serviços.
Dos 5.569 municípios considerados no levantamento, aproximadamente 4 mil estão fora das regiões metropolitanas. Nessas localidades, a participação das transferências públicas na economia pode alcançar o dobro da registrada nos grandes centros urbanos.
O Ceará ilustra essa diferença. Enquanto os benefícios representam cerca de 22% da renda agregada da capital e de sua região metropolitana, a participação chega a 40% no interior.
Além do Rio Grande do Norte, Amapá e Piauí apresentam as maiores perdas proporcionais no cenário simulado. Amazonas, Sergipe e Pernambuco registrariam diferenças próximas de 15%, enquanto Ceará, Maranhão, Alagoas e Bahia teriam retrações entre 10% e 13%.
Em Estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, o impacto estimado poderia chegar a 6,5%.
Sem reajustes anuais, pobreza poderia aumentar em ritmo acelerado
O estudo também calcula os efeitos sociais de uma eventual interrupção da valorização dos benefícios. Entre famílias com renda mensal de até 1,5 salário mínimo por pessoa, aposentadorias, BPC e transferências de renda podem representar até metade do orçamento doméstico.
Segundo as simulações, caso os benefícios não tivessem registrado ganhos reais entre 2022 e 2025, aproximadamente 2,7 milhões de pessoas a mais poderiam estar em situação de pobreza nos municípios brasileiros fora das regiões metropolitanas. Desse total, cerca de 2,4 milhões estariam em extrema pobreza.
Em números absolutos, a Bahia apresentaria o maior aumento, com até 336 mil pessoas adicionais em situação de pobreza. São Paulo teria 263 mil e Minas Gerais, 251 mil. Maranhão, Pará e Ceará também registrariam mais de 200 mil pessoas afetadas cada um.
Para o Rio Grande do Norte, o levantamento indica maior exposição proporcional à perda de renda, mas os dados apresentados não permitem quantificar o aumento específico da pobreza no Estado.
Na avaliação de Luiza Nassif, a preservação do poder de compra dos benefícios tem efeitos que ultrapassam a proteção individual dos beneficiários. Ao sustentar o consumo, as transferências também contribuem para manter a atividade econômica e o emprego nos municípios.
O estudo aponta, assim, que mudanças nas regras de reajuste podem produzir efeitos distintos entre as regiões brasileiras, com consequências mais intensas nas economias do interior que dependem de aposentadorias e programas sociais para sustentar parte da demanda local.
O estudo consta na Nota de Política Econômica nº 90 do Made-USP, publicada em 18 de outubro de 2026, intitulada “Quanto perdem as economias do interior quando os benefícios sociais deixam de crescer? Simulações dos efeitos na renda e na pobreza”, que é assinado por Luiza Nassif Pires, Clara Brenck, Clara Saliba e Theo Diogo.
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