‘Minha vacina é Jesus’: uso de máscara divide opiniões

O número de pessoas com máscara era quase o mesmo de caxienses que estavam desprotegidos — e a decisão da prefeitura divide opiniões.
Na última terça-feira (5), o prefeito Washington Reis (MDB) desobrigou o uso de máscara em locais abertos e fechados em todo o município, ainda que menos da metade da população esteja vacinada contra a covid-19 com as duas doses.
A cidade da Baixada Fluminense alcançou 46,8% do público-alvo com a imunização completa. Duque de Caxias é a primeira cidade do Brasil a desobrigar o uso das máscaras.
Na quarta-feira (6), o MPRJ (Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro) e a Defensoria Pública ingressaram com pedido para suspender o decreto, mas a prefeitura informa que, até agora, não recebeu nenhuma notificação, dando continuidade à decisão.
Na praça da Emancipação, uma das principais do centro de Caxias, um casal de idosos atendia uma pequena fila que se formava para receber orações. Enquanto tocava louvores em uma caixinha de som, as pessoas deixavam anotados em um caderno os nomes de parentes para quem desejam que orações sejam dedicadas. Ao lado, Marilza Rodrigues de Azevedo, 69, orava pelas pessoas com óleo ungido e sem máscara.
Pastor da Assembleia de Deus em Belford Roxo, município vizinho a Caxias, Ananias Martins da Silva, 70, auxiliava a noiva nas orações sem nenhuma proteção. Os dois estão com casamento marcado para a próxima quinta-feira, com uma cerimônia simples na igreja Assembleia de Deus Restaurando Vidas, em Belford Roxo.
Muita oração, pouca precaução
Antes mesmo do novo decreto, o casal já não usava a máscara e decidiu não tomar a vacina contra a covid-19. “Minha vacina é Jesus, ou eu confio, ou não confio. Não peguei covid e nem vou pegar porque confio em um Deus vivo. Eu concordo com essa decisão porque, com máscara ou sem, se tiver que pegar, pega”, disse Ananias ao TAB, ignorando todas as orientações sobre a importância da continuidade de medidas sanitárias contra a pandemia.
Depois de orar por uma moça, Marilza, que também se recusa a tomar o imunizante, se mostrou favorável ao novo decreto. “Minha filha, eu já tive 15 cânceres e um derrame, até que um dia Jesus me disse: ‘Do seu corpo, eu que cuido’. Eu não tomo vacina nenhuma, de jeito nenhum. Jesus não permite essa doença em mim não, ele quer que eu ore pelo povo dele. Sobre essa nova decisão, o prefeito está com Jesus, ouvindo a voz de Deus. É Jesus purinho na vida desse homem.” Mesmo sem vacina e máscara no rosto, Ananias carrega sempre uma no bolso, caso tenha que entrar em um lugar que proíba a entrada sem a proteção — para ele e para os demais.
Ao longo do calçadão, é possível ver diversos estabelecimentos com funcionários sem máscara, ou pessoas usando a máscara de forma incorreta. Em uma loja de sapatos femininos, uma vendedora circulava sem proteção, enquanto as outras funcionárias e clientes estavam com os rostos cobertos.
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