Consumo dá sinal positivo e China pode liderar recuperação econômica global

Foto: Zhejiang China Daily/Reuters

Enquanto boa parte do mundo luta para impedir que uma segunda onda do novo coronavírus complique a já frágil retomada, a economia da China está esquentando e deve terminar o ano mais influente do que nunca. A segunda maior economia do mundo foi a única, entre as mais poderosas do mundo, a evitar entrar em recessão em um ano que a Covid-19 forçou lockdowns e debilitou negócios. O PIB da China deve avançar 1,6% em 2020, enquanto a economia global vai contrair 5,2%, de acordo com previsões do Banco Mundial.

Para conseguir essa recuperação relativamente rápida, o país adotou diversas medidas, incluindo lockdown rigoroso e políticas de rastreamento da população para tentar conter o vírus. O governo também separou bilhões de dólares para projetos de infraestrutura e ofereceu incentivos para estimular o consumo da população.

E a compensação se mostra evidente, com o turismo e os gastos da população voltando a crescer durante o feriado da Golden Week chinesa.

Até o final do ano, a participação da China no PIB global deve crescer 1,1 ponto percentual, de acordo com cálculos do CNN Business baseados em dados do Banco Mundial. Este número é mais que o triplo do que o país ganhou em 2019. Estados Unidos e China, por outro lado, vão ver sua participação cair sensivelmente.

No final das contas, a economia chinesa deve passar a valer US$ 14,6 trilhões até o final de 2020, equivalente a 17,5% do PIB global. Mesmo sem a disrupção do vírus, a participação chinesa aumentaria este ano, afirma Larry Hu, economista-chefe para China do Macquarie Group.

Mas a habilidade de resistir à queda global está acelerando o crescimento de sua importância na economia global. “A recuperação na China tem sido muito mais forte do que no restante do mundo”, Hu acrescentou.

Explosão na Golden Week

A melhora da economia ficou ainda mais aparente na última semana, quando o país celebrou o feriado da Golden Week. As festividades celebram a fundação da República Popular da China e o Festival da Lua, e foi uma das temporadas de turismo mais movimentadas do ano.

Mais de 630 milhões de pessoas viajaram pelo país durante o feriado que acabou na quinta-feira, apontam dados do Ministério da Cultura e Turismo. Isso representa quase 80% dos números do mesmo período do ano passado.

Gastos de turistas, por outro lado, recuperaram quase 70% dos níveis registrados no ano passado, alcançando US$ 70 bilhões. A venda de ingressos de cinema ultrapassou os US$ 580 milhões durante o período — apenas 12% menos que os números recordes do mesmo período do ano anterior.

“Os números do feriado são encorajadores”, diz Hu. “Com a vida voltando ao normal na China, o consumo, principalmente de serviços, está se recuperando”, afirmou, acrescentando a que a demanda reprimida está se voltando.

Recuperação mais balanceada

Mesmo antes do feriado, a recuperação chinesa já estava pegando embalo. Os números oficiais das atividades de manufatura cresceram para valores máximos em seis meses durante setembro. Uma pesquisa promovido pelo grupo Caixin, que mede negócios menores, também mostrou expansão do setor no último mês.

O setor de serviços é outro que está se dando bem. Dados divulgados na primeira semana de outubro mostram que a atividade está em seu nível mais alto em sete anos. Pesquisa do Caixin revelou ainda que o segmento de serviços teve um dos maiores avanços da década em setembro.

“No geral, a economia se manteve numa fase de recuperação pós-pandemia e melhorou num ritmo maior”, diz Wang Zhe, economista sênior do Caixin Insight Group, disse em relatório que acompanha os dados.

Os gastos da população também estão voltando ao normal, em mais um sinal encorajador. Economistas estavam preocupados no início do ano com o desbalanceamento da recuperação chinesa, que estava ocorrendo por projetos de infraestrutura liderados pelo governo e não tanto pelo consumo das famílias.

E, apesar das tensões comerciais, a economia chinesa também se beneficiou do seu papel vital nas redes de fornecimento global, explica Louis Kujis, economista-chefe para Ásia da Oxford Economics. A pesquisa e os cálculos do grupo também indicam que a China deve aumentar sua participação no PIB global em 1 ponto percentual este ano.

“Apesar das expectativas de mudança do fornecimento gobal para outros países que não a China, parece que, por enquanto, o sucesso do país em afastar o coronavírus e manter suas fábricas ativas deve reforçar a importância da potência asiática”, afirma Kujis. Ele pontuou que o investimento dos EUA na China aumentou em 6% no primeiro semestre, apontam dados do Ministério do Comércio chinês.

“Mesmo com as tensões entre EUA e China piorando recentemente, muitas multinacionais americanas seguem tentando estabelecer parcerias com a China”, diz Kujis, acrescentando que firmas americanas foram encorajadas pela decisão de Pequim de remover barreiras para investir no setor financeiro do país.

Desafios à frente

Mesmo com a recuperação se mostrando forte, há desafios pela frente. Como em outros países, a pandemia foi muito dura para famílias pobres e rurais, de acordo com analistas da Fitch Ratings.

A média da renda mensal coletada por trabalhadores rurais migrantes caiu quase 7% no segundo trimestre comparada com o mesmo período do ano passado, de acordo com estimativas do Banco Mundial utilizando dados do governo chinês. As milhões de pessoas que se encaixam na descrição trabalham nos setores de construção, manufatura e outras atividades vitais com vencimentos baixos.

Famílias com rendimentos baixos no país — aquelas que ganham menos de US$ 7,350 por ano — registraram os declínios mais severos no seu patrimônio em comparação com qualquer outro grupo, mostra pesquisa da Southwestern University da China em parceria com o Ant Group.

“Isso sugere que a recuperação no consumo tenha sido mais forte entre grupos com remuneração maior”, disseram analistas da Fitch Ratings. Kujis e a Oxford Economics disseram que as tensões com os EUA também se mantém preocupantes, mesmo com o investimento aumentando.

Se os EUA realmente se afastarem da China, o crescimento do país seria afetado menos de meio ponto percentual por ano até 2040, disse, desde que outras economias desenvolvidas mantenham seus acordos.

Mas se outros países desenvolvidos acompanhassem os EUA, ele suspeita que o impacto poderia ser muito maior, fazendo com que o PIB da China caísse duas vezes mais rápido no mesmo período. Esse tipo de afastamento substancial iria “reduzir duramente a produtividade e o PIB do país”, explica Kujis.

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