UFRN busca volutnários para participar de pesquisa sobre tratamento de sintomas associados às cólicas menstruais

Desde a adolescência, Geufrânia Araújo tem uma certeza: todos os meses ela vai viver pelo menos três dias de sofrimento. A arquiteta, de 39 anos, relata que, um pouco antes e durante a menstruação, as pernas pesam, a barriga se distende, a enxaqueca e os enjoos vêm e a pressão baixa, tudo isso acompanhado, é claro, pelas temíveis cólicas, traços que a impedem de levar uma vida próxima do normal no período. “O fluxo, o sangramento mesmo, não incomoda, o problema é essa enxurrada de sintomas que sinto”, explica. 

Da mesma forma que Geufrânia, estima-se que 65% das mulheres em idade reprodutiva sofram com os sintomas da dismenorreia primária, termo médicos para as cólicas menstruais. Além de dor uterina que, de tão intensa, pode ser irradiada para as costas ou para membros inferiores, são características associadas a esse quadro clínico cefaleia, náuseas, vômito, constipação e até desmaios, sintomas que se apresentam normalmente um dia antes do fluxo menstrual e chegam a durar até 72 horas.

A diminuição da funcionalidade e da qualidade de vida das mulheres no período menstrual é tão grande que o tema chegou ao Congresso Nacional. Existe um Projeto de Lei (PL 6784/2016), do deputado federal Carlos Bezerra (PMDB-MT), em análise na Comissão de Desenvolvimento Econômico, Indústria, Comércio e Serviços que acrescentaria à Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) o direito a um afastamento de três dias para tratamento desses sintomas.

Ao mesmo tempo e com expectativa de êxito, uma pesquisa vem se desenvolvendo na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) para combater os transtornos causados pelas cólicas e os demais sintomas que a acompanham. O projeto Efeitos da Eletroestimulação Transcraniana com Corrente Contínua (ETCC) sobre os sintomas associados à Dismenorreia Primária tem alcançado resultados animadores nessa área.

Sob orientação da professora Maria Thereza Micussi e em parceria com o professor Rodrigo Pegado, da Faculdade de Ciências da Saúde do Trairí (Facisa), Larissa Varella investiga um tratamento que permita às mulheres ter uma convivência pacífica com a menstruação. Aluna do Programa de Pós-Graduação em Fisioterapia da UFRN, Larissa estuda como a Eletroestimulação Transcraniana pode reduzir a dor e melhorar o sono, o humor e a funcionalidade, fatores comumente alterados no período menstrual. 

Nesse trabalho, a paciente recebe a Eletroestimulação Transcraniana – com eletrodos de frequência bem baixa e indolor – nos cinco dias que antecedem o fluxo, em sessões com 20 minutos de duração. Após esse período, no primeiro dia de ciclo, é feita uma análise das condições gerais de variáveis como dor, sono, funcionalidade e qualidade de vida. Ao longo do mês subsequente, a participante da terapia classifica diariamente seus níveis de dor até que o tratamento se repita nos cinco dias anteriores à menstruação. Depois de mais 30 dias de auto-observação das dores devidamente anotada, ao início do terceiro ciclo, acontece uma reavaliação.

“É um tratamento simples, tranquilo e que não tem repercussões negativas, evitando a utilização de drogas que trazem efeitos colaterais e mascaram a dor. A proposta da ETCC é trabalhar o centro cerebral da dor, fazendo neuro modulações e mudando a resposta ao estímulo da dor”, conta Larissa, ao dizer que a pesquisa é uma ampliação do trabalho do feito pelo professor Rodrigo Pegado na Facisa, em Santa Cruz, que tratava a dor não só da Dismenorreia, mas também da Chikungunya e da Fibromialgia. 

“Os resultados alcançados em Santa Cruz são muito positivos para dor, mas não dão resposta aos demais sintomas. Por isso, a ideia é estimular uma outra área cerebral que também tem relação com a dor, que é o Córtex Pré-frontal Dorsolateral, e ver se conseguimos obter um efeito sobre essa sintomatologia que incomoda tanto”, explica a pesquisadora. 

Geufrânia, que já fez de tudo para se desvencilhar dos obstáculos impostos pela Dismenorreia, seria muito beneficiada pela terapia. “Só não tive cólicas enquanto estive grávida e em uma determinada época da faculdade. Era uma situação crítica, não podia ficar três dias hospitalizada, e tomei uma medicação que suprimiu minha menstruação, o que trouxe consequências ruins por causa do excesso de hormônios”, relata.

Primeiros Resultados

Quem experimentou o tratamento nesta fase inicial aprovou. Segundo Larissa, houve um caso, inclusive, no qual a paciente chegou a um alívio tal dos incômodos que não concluiu a terapia por não se lembrar das dores. Naturalmente, a pesquisadora recomenda a conclusão de todas as sessões e avaliações para resultados mais confiáveis. As voluntárias que participaram do projeto e se submeteram à terapia relataram melhoras significativas em suas atividades cotidianas e na relação com as dores, que em alguns casos chegam a ser desprezíveis. 
      
Maise Paulo, de 22 anos, recebeu o tratamento e gostou dos seus efeitos. “Eu sempre tive cólicas menstruais. Tinha de tomar analgésicos para me sentir aliviada e poder continuar minha rotina, mas já houve dias de ficar incapacitada mesmo medicada. O surpreendente dessa terapia foi a redução significativa da dor no período menstrual e nem precisei de remédios”, conta a estudante de Fisioterapia, recomendando às mulheres que passam todos os meses por isso: “fará uma enorme diferença na vida”.

Também com histórico de enfrentar diversos transtornos decorrentes da Dismenorreia primária, a estudante de Biologia Maria Lara Porpino, de 22 anos foi beneficiada pela terapia e diz que agora sente apenas dores leves, bem diferentes das que já a levaram à hospitalização, além de não ter mais os enjoos. Ela ainda ressalta que outro aspecto importante da pesquisa é colocar o assunto em primeiro plano. “Infelizmente a menstruação ainda é um tabu e algo que limita as mulheres no campo de trabalho e na vida pessoal, por isso é muito importante o investimento nesse problema”, afirma Maria Lara.

Voluntárias

A partir de resultados iniciais tão promissores e com a perspectiva de poder ajudar mulheres que, assim como Geufrânia, ainda não enxergam uma solução a curto prazo para o alívio dos sintomas associados à dismenorreia primária, a pesquisa precisa seguir em frente. Para tanto, o Programa de Pós-Graduação em Fisioterapia da UFRN recebe voluntárias que desejem participar da terapia.

De acordo com Larissa, as voluntárias precisam ter pelo menos 18 anos de idade e atender a alguns outros pré-requisitos como cólica forte e incapacitante acompanhada de enjoo, enxaqueca, irritabilidade, alteração do sono. A pesquisadora destaca, no entanto, que esses sintomas não podem estar associados ao diagnóstico de outras patologias, especialmente ovário policístico, endometriose ou mioma, o que classificaria para Dismenorreia Secundária.

Para ser voluntária, basta a paciente enviar um e-mail para pesquisadismenorreia@gmail.com manifestando interesse em participar do projeto e aguardar o contato da pesquisadora. “Gestação, tipo de parto ou uso de anticoncepcionais não excluem do tratamento, desde que o ciclo seja regular”, esclarece Larissa, que espera contar com pelo menos 30 mulheres para ampliar a pesquisa e ajudar a melhorar a qualidade de vida da população feminina.

 

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